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Quinta, 14 de Dezembro de 2017
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Texto sem Unidade Or Ação de Natalidade. Por: Maitan
Dia 25 de dezembro nascerá José, que será deitado em berço esplêndido, na favela da Rocinha, ou até mesmo da Maré. Feito o João, que nasceu na Cidade de Deus, e o Joaquim aqui do Capão Redondo
Texto sem Unidade Or Ação de Natalidade. Por: Maitan

Na casa grande, para cobrir a fétida imagem da senzala, os poderosos vestiam suas paredes com papéis de Paris ou de algum outro encanto europeu.

Os filhos dos fazendeiros, pais do nosso modernismo, falaram bonito, mas pouco foram ouvidos. Não assumimos o travestismo. E Iracema tem mais voz que Macunaíma.

No tempo em que Deus criou o mundo, não existia a América. Antes, foram os índios que a revestiram de suas próprias peles. E quando os europeus os expulsaram de seu paraíso, Deus gostou tanto do que viu, que logo abandonou o Oriente Médio e arrumou seu Green Card, para poder morar em Manhattan, frequentar a Disney e tirar férias em Miami.

No Brasil, montam árvores de natal usando brinquedos de pinheiros que, cá entre nós, não existem. A árvore de natal daqui deveria ser feita de coqueiro, e as bolas coloridas todas verdes e com água dentro. As luzes sairiam das balas perdidas, herdeiras da colonização. E a coca-cola seria água de bica natural. Mas ficam esses pinheiros, com direito até a neve, de raízes tão ralas e emaranhadas que não penetram a terra.

E alguns ainda teimam em dizer que Deus é brasileiro.

Dia 25 de dezembro nascerá José, que será deitado em berço esplêndido, na favela da Rocinha, ou até mesmo da Maré. Feito o João, que nasceu na Cidade de Deus, e o Joaquim aqui do Capão Redondo. Até mesmo como a Maria Madalena, criada nos mangues de Recife, e Maria de Nazaré, no verde mar amazônico.

E todos caminharão a pé e morrerão sem ninguém os conhecer, mas eternamente lembrarão seus nomes. Jesus? Nasceu e morreu no Complexo do Alemão e não ressuscitou no terceiro dia. Nem teve conta no orkut, twitter ou facebook, para se imortalizar. Nem o e-mail ou o número do celular de seu Pai, que atende pedidos via MSN e SMS, com promoção para ligações internacionais. Mas manipulava sua AK-47 divinamente.

A seleção brasileira tá em campo. De batalha. E há quem diga que o Sabiá gorjeia Michael Jackson como ninguém.

Na padaria do português, haveremos de comprar nosso pão francês, se sobrar dinheiro para abastecer a brasília. E agradeceremos pelo pão que o Tição amassou, de todo santo dia.

Até o inferno! Onde a luz é o próprio fogo. Onde devo encontrar a rapaziada cantando Demônios da Garoa. E deve estar lá mesmo o meu Muiraquitã.

Merry Christmas e bom réveillon! Quiçá ano que vem a gente ressuscita. Ou nasce.

Ave Maria! Axé. Amém.



Fonte: Bocardente / A Rocinha é lembrada até nos textos mais insólitos, nas licenças poéticas, nas mais profundas viajens humanas. Incrível!
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