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Educação: Escola Parque tem um pré-vestibular diferenciado
PECEP, uma troca entre alunos e classes
Educação: Escola Parque tem um pré-vestibular diferenciado

Alunos do PECEP tendo aula de redação com o coordenador e professor Ramon Ramos. Foto: Luana Duarte

A ideia de criar o PECEP surgiu depois do sequestro do ônibus 174, que virou manchete em todo o país no ano de 2000. Após esse acontecido, alunos da Escola Parque resolveram criar um pré-vestibular comunitário, pois eles acreditavam que a educação poderia livrar jovens do crime. Desde então, o curso possui aulas dadas por alunos do terceiro ano da escola.

O estudante Daniel Serebrenick fala da experiência de dar aula: “Por você não ter muito conhecimento como um professor tem, você se senti meio inseguro de falar certas coisas. Então, eu tomo muito cuidado com que eu falo. Eu procuro sempre pegar as matérias que os professores mesmos me deram. Eu também tento me interagir com eles. Eles também me dão uma resposta. Eu procuro fazer com que eles gostem de mim para eles terem alguma confiança”. Ele, que também está prestando vestibular, confessa ainda que acaba tirando proveito ao se doar para o curso: “Eu acabo estudando muito porque eu tenho pegar coisas que eu não vejo há muito tempo. Eu pego desde o primeiro ano, o segundo ano e chego ao terceiro. Eu tentei não fazer com que esse fosse só o meu objetivo. Meu objetivo é também ter essa interação”.

 Os alunos do projeto não se incomodam de estudar com alunos do terceiro ano, como diz Carlos Augusto Schmidt: “Eu acho interessante porque a gente pode compartilhar do que eles têm na escola. No caso, a escola particular que é melhor do que a pública que é um pouco defasada”.

O PECEP, entretanto, não se preocupa apenas com a aprovação nas provas de vestibular ou Enem. Há também uma preocupação com a inclusão social. Para cuidar desse assunto, o curso possui a Comissão de Cultura e Cidadania (CCC) que programa atividades extras como filmes, debates, palestras ou, até mesmo, churrascos para criar uma maior interação entre todos. A coordenadora da comissão, Mariana Chalhub, explica: “Atividades de cultura e cidadania é um diferencial do nosso curso, porque a gente pensa que não é só pegar uma pessoa dar educação e colocar ela na faculdade. A gente acredita que ela tem que saber lidar lá. Porque às vezes, as pessoas chegam e nunca foram ao cinema, nunca foram ao teatro e mesmo que a gente insira ela na faculdade, a gente não inseri ela socialmente”. Mariana, que começou como estudante da Escola Parque, está completando o seu quarto ano de PECEP e revelou: “Às vezes eu tô ajudando eles, mas eles abrem muito a minha cabeça.”

A aluna Sônia Maria Pereira, que chegou ao curso incentivada pela sua patroa, fala do documentário Lixo Extraordinário que assistiu em uma das atividades extras: “Eu vim só em uma. Só vim ver o filme Lixo Extraordinário que eu achei bastante interessante. A gente comentou sim um pouco a respeito sim pra ver o quanto a gente produz de lixo; e a preocupação em como preparar o meio ambiente para tudo isso leva a gente a refletir bastante”.

Jéssica dos Santos Viana, que costuma ir às atividades com mais frequência, também dá sua opinião: “A gente passa a entender e ter uma visão diferente sobre determinados assuntos”.

O PECEP, como todo trabalho social, também enfrenta dificuldades. Uma delas é conseguir voluntários e mantê-los no projeto, que hoje possui cerca de vinte pessoas envolvidas. O coordenador geral do curso, Ramon Ramos, que chegou ao projeto por indicação de uma amiga, fala sobre o assunto: “Acerca da renovação eu acho que é até natural, uma vez que é um pré-vestibular comunitário e voluntário. Ou seja, ele não vai retribuir de forma financeira nenhum professor. Então, ter uma rotatividade muito grande faz parte desse tipo de processo voluntário já que as pessoas têm suas coisas para resolver também e às vezes não podem ficar por um período muito grande de tempo”.

Ramon conta ainda uma história que ele vivenciou em seu primeiro ano de PECEP. “A história é a que eu sempre conto sobre uma moça chamada Evanilde e devia ter mais ou menos quarenta anos. E na primeira aula que eu dou de redação eu sempre digo que ninguém escreve sem ler. É preciso ter uma rotina de leitura para que a escrita venha. Então, na semana seguinte, ela veio com Saramago, dizendo que estava lendo Ensaio sobre a cegueira. Eu falei: ‘Mas Evanilde, isso é Saramago. Você pode ir com calma. Pode começar com Jorge Amado, uma coisa mais tranquila.’ ( e ela:) ‘ Professor, eu tô gostando’. Ela era uma empregada doméstica, mas que não faltava nunca. Fazia todas as atividades e não deixava o trabalho que ela tinha ficar acima dos compromissos dela como estudante. Estudou pra caramba. Tinha aqueles problemas de fala e escrita; ela era aquela pessoa que falava ‘pobrema’ e alguns sacaneavam, mas no final foi uma dos quatro que passou para universidade pública. Ela passou na UFRJ pela prova da UFRJ, não foi nem pelo o Enem. E tinha um monte aluno que ficava sacaneando por causa do pobrema que ficou fazendo o outro ano para ver se conseguia. Então, é uma história que sintetiza bem a importância da vontade e da dedicação, independente de idade, classe social, trabalho ou qualquer coisa que seja e é uma motivação pra gente estar sempre acreditando”.□



Fonte: Por Luana Duarte - luanarjmail@ig.com.br
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Fernanda Bonetti
Postado 7/10/2011 22:05:03
Sensacional!Eu me orgulho de ter sido aluna desse projeto.Pessoas jovens que se dedicam de coração a ajudar tirando todas as dúvidas necessárias e a todo momento.
O mais autêntico Blog da Rocinha. Matérias dos tempos antigos e posts do primeiro site www.rocinha.org estão na área de Blog

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