BUZUNGA, ‘DE GANDULA DO CAMPINHO’ AO MITO

barr_rua2

Barracos da Rocinha nos anos 80

“Nem precisa ser muito antigo de Rocinha para conhecer as hist√≥rias mirabolantes de uma √©poca em que Buzunga, Naldo, Bolado, Cassiano e Brasileirinho,¬† eram os personagens mais emblem√°ticos da maior favela. E quem nunca ouviu falar de Buzunga e a sua insepar√°vel ‘Jovelina’?”

Jovelina, era uma submetralhadora Uzi,¬† preta, que segundo a lenda, cantava e cuspia¬† fogo, numa √©poca em que o antigo trezoit√£o e a 45 ainda eram armas de combate. Buzunga, anti-her√≥i do reino de Deus, mas um graduado no reino de D√™nis, era um cria muito conhecido, e fez parte do primeiro escal√£o da bandidagem da Rua Dois. Opera√ß√£o Mosaico, fliperama, rajadas na laje, um bandido mirim. N√£o falo nada que j√° n√£o tivesse repercutido no mundo inteiro. A Rocinha se notabilizou na m√≠dia mundial com esses temas. Se tornou conhecida internacionalmente assim, e tudo ainda numa √©poca bem mais rom√Ęntica da favela, se √© que ainda podemos dizer assim.

N√£o gosto de falar desse tema nas depend√™ncias de Rocinha.org, mas, essa categoria, o ‘Cronista da Favela’, faz parte de um acervo de mem√≥rias que pretendo futuramente transformar em um livro. Mem√≥rias de quem passou uma vida inteira na Rocinha e viu de tudo. Um relato honesto e sincero de quem jamais vai denegrir ou renunciar suas origens, mas tamb√©m n√£o vai se furtar a abrir um debate √° respeito. E √© com muito respeito que devemos tratar de uma vida inteira passada na favela. Uma vida cheia de aventuras e percau√ßos. Uma inf√Ęncia marcada por dificuldades mas acalentada por sonhos. Uma experi√™ncia inenarr√°vel de vida que tentamos pautar avivando a mem√≥ria, separando a esc√≥ria, juntando alguns cacos e cavacos. A vida no morro √© assim. Se n√£o fosse pela extrema pobreza, gostaria de passar tudo novamente. Tudo. A√≠ vem a inevit√°vel pergunta: porque come√ßar falando de Buzunga, Brasileirinho, Jovelina, bandidagem, etc? Porque?¬† pois √©…. √© porque faz parte…

Lembrei de Buzunga porque ele fez parte da minha inf√Ęncia. Era um neg√£o gordo e brincalh√£o, que ia com a rapaziada da Rua Dois pro antigo campinho da Paula Brito. Ele era muito novo ainda, ent√£o n√£o jogava. Sua fun√ß√£o era buscar a bola quando era chutada para longe. Isso mesmo. Buzunga, que anos √° frente seria bandido temido, foi gandula de um time de pelada da Rua Dois. Bobo e inocente, buscou muitas bolas dente de leite no mato para: Burunga, Ganso, Bagre, Vilson, Rato, Rapizzo, Quejeiro e outros mais. Naquele tempo pra fumar um baseado o cara tinha que se entocar no mato ou se esconder dentro do √īnibus do C√Ęndido portugu√™s, um fresc√£o da Transportes Tr√™s Amigos que ficava estacionado pr√≥ximo √°s grades do jogo de ronda. Naquele tempo, o maconheiro respeitava as crian√ßas e as fam√≠lias e principalmente os ambientes p√ļblicos. Eu que era mais recatado, ficava impressionado quando os moleques falavam: “Sabia que o Rapizzo fuma maconha dentro do fresc√£o?”. A gente √≠a por tr√°s do √īnibus √° noite para tentar ver. S√≥ me lembro do som de uma boca sugando algo e um vagalume de brasa encandescente fazendo um ponto vivo na escurid√£o. O cheiro a gente quase n√£o percebia porque todas as janelas eram fechadas para “dechavar”. As vezes os caras levavam mulheres para transar nos bancos do fresc√£o. Era a melhor espiada. Sou dessa Rocinha long√≠nqua, distante.

Mas, voltando a falar do Buzunga (acho que o nome dele era Nelson), tem uma passagem que n√£o d√° pra esquecer. A molecada do campinho, do atalho, da Paula Brito, Rua Dois e redondezas, cultuava uma brincadeira terr√≠vel de atirar ovo podre nas pessoas. √Č isso, ovo estragado. Tinha que ser o mais fedido poss√≠vel. Pra ficar no ponto, a gente mijava dentro de uma seringa e injetava no ovo com cuidado para n√£o estourar a casca. Guardava aquilo por uma semana. Uma semana! Ele ficava com uma gosma preta por dentro e o fedor √© familiar para mim at√© hoje. Familiar porque eu era um moleque loirinho, branquinho, mais educado. Flertava com a rua mais tinha uma severa vigil√£ncia da minha m√£e que me espancava quando sa√≠a sem permiss√£o. Hoje eu entendo ela.

Pois bem… Buzunga era cobrador do ‘cata corno’, do lota√ß√£o amarelinho que fazia ponto final na entrada da Rua Dois, pr√≥ximo a oficina do Gaguinho. Eu estava sentado na pedra do falecido Miliano quando ele saiu de tr√°s do √īnibus 62 do sr Gutarro e me atirou um ovo podre. O artefato fedorento me acertou bem no peito, parecia uma pedrada. O ovo preparado para apodrecer ganhava consist√™ncia e peso, e quando atingia um corpo com for√ßa era do√≠do. O neg√£o me acertou uma ovada e depois entrou no √īnibus rindo muito, ele desceu pra √°rea dele escondido, pendurado na porta do ‘cata corno’. Nunca vou esquecer a sua cara rindo de mim, ele morava na Rua Dois, eu no atalho, era tipo guerra de gangues de moleques, eu nem participava, mas fui alvejado. Covardemente alvejado. A molecada ria de mim. O pior √© que quando cheguei em casa, minha m√£e quase me matou de porrada. Ela era daquele tipo: se apanhasse na rua, apanhava em casa tamb√©m. Ovo podre, co√ßa, vergonha… tudo por causa do Buzunga, aquele gandula miser√°vel, puxa-saco da rapaziada da pelada da Rua Dois. Filho da m√£e. E ele era mais novo, mais era maior do que eu, e ainda era bom de porrada. Ainda tinha isso. Eu n√£o era muito de briga, n√£o tinha essa cultura. isso faz muita falta para quem √© moleque de morro. Como faz.

Fiquei uma semana de castigo, sem sair de casa, mas, com sede de vingan√ßa. Eu tinha que me vingar e melhorar minha imagem perante a molecada da rua, ent√£o resolvi preparar um ovo para acertar o Buzunga. Mas como? Qual seria a estrat√©gia? Ele morava na Rua Dois, era cobrador de √īnibus, e daqueles malandros que iam de passageiro em passageiro cobrando, sacudindo a m√£o de moedas. Eu era preso, vigiado pela minha m√£e, e n√£o era mal como ele. Mas eu estava muito irritado. Apodreci um ovo de uma forma que n√£o quero relatar. Escondi dentro de uma meia, numa fresta entre a parede de madeira e o telhado do barraco, na parte alta do beliche. Eu dormia no segundo andar do beliche. S√≥ n√£o aguentei esperar uma semana, com tr√™s dias eu j√° saquei meu artefato com muito cuidado. Um ovo podre a gente conduzia como uma granada sem pino, com extremo cuidado. Se estourasse, o tiro sa√≠a pela culatra.

De posse de minha arma, s√≥ faltava localizar o alvo. Ent√£o fui para a varandinha do barraco e passei a escoltar os lota√ß√Ķes que paravam no ponto do 308. Em pouco tempo esconstou o 62 do Buzunga, tava meio vazio pelo hor√°rio e por estar √° uma parada do ponto final. Da varanda dava para ver o meio corpo dele dentro do lota√ß√£o, segurando nos bancos e contando o dinheiro das passagens. Olhei para um lado e para o outro e n√£o titubiei. A gente escolhia o maior ovo da caixa para preparar, e aquele parecia ovo de avestruz, pois com nossas inje√ß√Ķes, ele inchava e escurecia. Dentro de uma meia e no bolso do shorte, conduzi o ‘pombo sem asa’ com z√™lo e sa√≠ em disparada para o ponto final do ‘cata corno’ em busca do neg√£o. N√£o poderia ser melhor, da curvinha do Gaguinho j√° deu para v√™-lo, pr√≥ximo a birosquinha do finado sr Luiz. Ent√£o eu vim sorrateiramente, por detr√°s do lota√ß√£o 62 que havia feito sua √ļltima viagem. A ilumina√ß√£o da rua era quase inexistente, ent√£o era muito f√°cil se esconder no escuro. Buzunga tava sentado num banquinho no ponto final, contando a f√©ria para prestar conta como piloto, que era dono do lota√ß√£o e patr√£o dele. O piloto tava tomando uma no bar, j√° com a camisa toda aberta. Aproveitei um momento de muito marasmo e ataquei. Sa√≠ da rabeira do lota√ß√£o feito um raio e peguei Buzunga desprevinido. Ele tava sentado, ent√£o n√£o atirei o ovo podre contra ele, estourei-o em sua cabe√ßa, na frente de todo mundo. Sa√≠ voado pra casa. Eu era magrinho e corria muito, ao contr√°rio dele que era balofo e andava sempre com um cal√ß√£o de el√°stico frouxo, quase caindo, dando pala de cofrinho mulato. Incr√≠vel, nem parece que eu t√ī falando de quem t√ī falando, mas √© verdade, pura verdade.

O neg√£o deve ter ficado fedido por mais de um m√™s. Eu n√£o sei direito, porque foi mais ou menos o per√≠odo em que eu fiquei de castigo, depois de apanhar muito aquela noite. Minha m√£e ra uma caninana. Cheguei em casa todo respingado de ovo podre, fedendo, suado, – havia acabado de tomar banho de bacia – mas apanhei rindo. Ficar de castigo para mim era uma defesa importante. Eu tinha a desculpa de n√£o poder ir pra rua perante a gurizada (mesmo que pudesse n√£o √≠a), mas em compensa√ß√£o n√£o corria o risco de levar porrada do neg√£o. O mais legal de tudo √© que essas coisas de moleque, essas rixas, passavam r√°pido (mais ou menos um m√™s, rs), e depois de um tempo a gente podia sair porque a “brincadeira” j√° era outra, a onda tinha mudado. Do ovo passava para atiradeira, garraf√£o, carni√ßa, lateiro, etc… Ent√£o, tudo que ficou para tr√°s era perdoado. Ufa. J√° pensou se o Buzunga guardasse m√°goa de mim? Pouqu√≠ssimo tempo depois ele trocou ovos podres por armas de fogo, de b√ībo virou esperto, de g√Ęndula virou lenda na favela. Uma certa vez me deparei com ele pr√≥ximo a boca da Rua Dois. Eu ia na casa de uma namorada e tinha que passar pela entrada do Jo√£o de Deus. Era noitinha e a bandidagem tava toda reunida na rua. No meio estava Buzunga e sua Jovelina. No momento que passei, ele olhou para mim e come√ßou a rir debochadamente, acho que estava lembrando do tempo da guerra de ovos. Talvez pensando: “Me taca ovo agora seu branquelo fdp”. N√£o sei. Cumprimentei-o com a cabe√ßa, mas n√£o achei gra√ßa nenhuma daquilo. Foi uma experi√™ncia altamente desconfort√°vel.

Ainda bem que o morro tem seu c√≥digo de conduta. Ainda bem que ‘bala trocada de moleque n√£o d√≥i’. Ou voc√™ acha que √© f√°cil estourar um ovo podre, impunemente, na cabe√ßa de um cara como o Buzunga, numa favela como a Rocinha? Acabei de pesquisar na rede e encontrei um texto afirmando que o Buzunga n√£o se chamava Nelson, mas sim, Robson. Na realidade, Robson da Silva. Ele morreu numa batida policial na Rocinha em julho de 1988. Dizem que ele foi arrastado ainda com vida amarrado num len√ßol, mas deu entrada morto no hospital com um tiro na cabe√ßa. Um tiro de miseric√≥rdia. Uma sina macabra que talvez ele carregasse desde a √©poca em que era cobrador de √īnibus. Ser alvejado trai√ßoeiramente, na cabe√ßa. Parece at√© uma aprecia√ß√£o de mau gosto de minha parte, mas para mim √© a real lembran√ßa que tenho, √© a verdade nua e crua com que aprendi a conviver e a conhecer melhor, ao longo de toda uma vida bem vivida na favela.

Tenho experi√™ncias bem mais picantes, bem mais pitorescas e muito mais tenebrosas do que essa. ‘O coveiro e o Lob√£o’, por exemplo. Por causa de coisas assim, hoje com uma vis√£o de quem mora no asfalto, tenho vontade de escrever um livro, escrever cr√īnicas incr√≠veis, porque eu acho que na condi√ß√£o de leitor, me interessaria pelo conte√ļdo que esse livro pudesse ter. Pery Ribeiro, filho de Dalva de Oliveira e Erivelto Martins (Minhas Duas Estrelas), um bom amigo que conheci quando desci do morro, foi o primeiro a me incitar. Ele ficava louco com minhas hist√≥rias, narradas aleat√≥riamente em caminhadas matinais. Antonio Joaquim, o J√ī, professor da PUC, √© outro. Um grande incentivador. Pelo menos j√° tenho gente pra escrever na orelha do livro. J√° tenho pref√°cio. E voc√™, o que acha?!

Ocimar Santos

Tags: , , ,

8 coment√°rios para “BUZUNGA, ‘DE GANDULA DO CAMPINHO’ AO MITO”

  1. cructuple disse:

    Just want to say what a great blog you got here!
    I’ve been around for quite a lot of time, but finally decided to show my appreciation of your work!

    Thumbs up, and keep it going!

    Cheers
    Christian, iwspo.net

  2. WAGNER RIO disse:

    EU FIZ PARTE DESSA JERAÇÃO Q SAUDADES
    NOSSA ESS√Č TEMPO N√ÉO VOLTA NUNCA MAS
    BUZUNGA NEGÃO VALENTE SAUDADES NEGÃO

  3. WAGNER RIO disse:

    minhA ROCINHA SAUDADADES DOS QUERREIRO DA ANTIGA

  4. ELISABETE ALVES disse:

    Muitas lembranças dessa época. Mesmo aquilo que não era tão agradavel não impedia que curtissemos nossos momentos.
    Adorei a ideia de saber da possibilidade de vc escrever um livro com as histórias sobre nossa querida comunidade. Sou a 1ª da fila pra comprar.

  5. julinho disse:

    era muito garoto ainda , mas tb lembro-me de buzunga e cia. confesso q preferia akele tempo , morador era mais respeitado …
    parabens pelo texto !

  6. valdinar disse:

    eu tinha 12 anos nessa época, minha tia tinha um comércio que hoje é um sacolão, lembro do buzunga e toda aquela rapaziada da rua dois. os anos 80 não voltam mais!!! se o livro sair quero ler!

  7. wagne disse:

    os cara sao lemda

  8. wagne disse:

    POW AQUELE TEMPO BANDIDO RESPEITAVA NOZ MORADO
    HOJE T√Ā UMA BACUN√áA HOJ√Č N√ÉO √Č COMO ANTIGAMETE
    UMDIA DESSE EU DERSI A RUA 2 UM BANDI ESCORO UM FUZIL NA MINHA BARICA Q FOCADO NÃO GOSTEI

    O BUZUNGA TINHA Q VOLTA AVIDA JUNTO COM ARAPAZIADA

Deixe um coment√°rio