Caso Ágatha – UM TIRO NO CORAÇÃO DA ROCINHA

DATA DA POSTAGEM ORIGINAL: 24/02/2008

Lembramos que a história não termina na última página. Ela continua como uma esperança. ESPERANÇA! Eis a palavra chave.Lembramos de criança, lembramos de Gilmar, morto (28 de outubro de 1981), durante uma batida policial. GILMAR MORREU E AGORA? Dedicamos este livro a Gilmar, a todas as outras crianças que sofreram violências da polícia, matando suas primeiras raízes de esperança.Dedicamos este livro a todos os meninos e meninas da Rocinha. (Livro: Varal de Lembranças, histórias e causos da Rocinha, 1983)

UMA VIAGEM NO TEMPO:

O ANO ERA 1982, a seleção canarinho de Sócrates, Zico e Falcão, encantava o mundo com seu futebol arte, e, em outra parte, aqui na Rocinha, o então adolescente, que hoje vos escreve – mesmo tendo passado alguns meses – não tirava este episódio da cabeça: A morte do menino Gilmar.

Confesso, não o conheci e nem sequer lembro com que idade morreu, mas, Gilmar, se tornou vítima fatal de bala perdida numa incursão policial mal sucedida, na localidade conhecida como Cidade Nova – onde hoje é a sede da UPMMR – na Rocinha.

Gilmar… Nunca esqueci esse nome, até porque naquela época, a comoção mediante este fato foi generalizada. A comunidade se mobilizou e protestou, lamentando e chorando por mais uma vida perdida. A morte de Gilmar foi um marco numa Rocinha de outrora, como alguns acontecimentos marcantes que assistíamos na TV daquela época.

Quem não seCaso Carlinhos lembra do “Caso Carlinhos”? (Foto) – Menino que desapareceu misteriosamente na Rua Alice em Laranjeiras no ano de 73 – “Caso Marly” (Mulher negra que teve a coragem de denunciar policiais que assassinaram seu irmão), “Caso Araceli”, “Claudia Lessim Rodrigues”, entre outros. Eram outros tempos. Tempo em que a violência não atingia índices tão alarmantes e casos assim chocavam a opinião pública, tendo imensa repercussão no país. Hoje nem dá pra isso, é um crime atrás do outro, e muita coisa a gente nem fica sabendo. Casos como o do menino João Hélio – Arrastado até a morte por ladrões quando ficou preso ao cinto de segurança do carro roubado da família – Da Jovem Luciana – Atingida no Campus da Universidade Estácio de Sá e condenada a viver em uma cadeira de rodas pra sempre – Se tornaram emblemáticos na mídia e contam com tristeza o lado negro dos dias de hoje. A violência tem várias caras, vários formatos, e o rumo pra banalidade nos desespera.

A VIOLÊNCIA ATINGE ESTÁGIO ALARMANTE

Quando moradores da Rocinha construíam o livro Varal de Lembranças no início dos anos 80, não era tão comum pessoas serem alvejadas por balas perdidas e também não havia as armas poderosas de hoje em dia, que atravessam uma parede de tijolo como uma faca afiada corta um tablete de manteiga. Quase três décadas passadas, o que parece, é que os assassinatos “sem querer” passaram de “terrível acidente fortuito” a “mortes que fazem parte do processo” na cartilha das polícias deste país.

O CASO ÁGATHA

É duro ver morrer quem nada tem haver. É dolorido assistir a banalização do impedimento de continuar vivendo. Balas perdidas tiram vidas! Mas quando encontram um peito juvenil como o de Àgatha Marques dos Santos, de apenas onze anos, já não é mais uma bala perdida. Ela encontrou um alvo. Ela tirou uma vida! Tirou uma vida!!! Meu Deus… Alguém tem que pagar essa conta no plano aqui de baixo, pois no plano superior essas almas estão mais que condenadas. Deus não dorme e jamais vai deixar de punir atitudes tão daninhas e cruéis. É a única certeza que se tem. Quem apertou o gatilho que levou pra sempre Ágatha, destruindo a vida de seus pais – O motorista de van Claudino Silva dos Santos e Flavia da Silva Marques – Além de familiares e amigos, acertou em cheio o coração da Rocinha, envergonhou o Rio, e enfeiou a cara do Brasil. Alguém tem que pagar por isso, de uma forma ou de outra. Exigimos justiça! A comunidade ordeira da Rocinha pede a paz e exige: JUSTIÇA! Como se não bastassem os assassinatos dos meninos Lineker, Jean e Leandro, executados na Rocinha na madrugada em que a comunidade contemplava o desfile de sua escola de samba no carnaval de 2004. Não agüentamos mais este tipo de covardia. Quem vai trazer de volta a vida de Lucas? – Jovem que levou um tiro pelo mesmo motivo quando soltava pipa da laje – Lucas é mais um pequenino traço nesta macabra estatística da guerrilha urbana em que estamos vivendo. A cada dia traços e mais traços, e as centenas de comunidades, já sofridas, choram os seus prantos.

A RAZÃO E A EMOÇÃO

É muito ruim pra um jornalista que escreve calcado na emoção e na sua verdade, ter que se policiar (detesto esta palavra) pra falar determinadas coisas. Certos assuntos são perigosos por demais, e não se trata de um filme de polícia contra bandido que você assiste no sofá e pode torcer pra quem quiser e depois tirar uma soneca. Trata-se de vida real. Trata-se da nossa vida. Mas, acredito que só com união, fé e coragem a gente vai conseguir reverter este quadro. Não dá mais pra ficar inerte, é um problema de todos. A criança que morreu com um tiro de fuzil dentro de sua própria casa só porque foi olhar da janela, poderia ter sido meu filho que mora á poucos metros dali, no atalho. Ele também estava em férias escolares e no convívio confortável da família naquele momento. Isto poderia ter acontecido com o filho de qualquer um. Poderia ter ocorrido com qualquer um de nós. Estamos falando apenas de nossas crianças, mas quantos adultos inocentes já morreram na Rocinha pelo mesmo motivo? Acho que até aqueles que porventura tem alguma “culpa no cartório” não devem morrer, mas sim, responder pelos seus atos. Todos têm direito a uma segunda chance. Não fosse isso, teríamos um número bem mais reduzido de convertidos, obreiros e pastores evangélicos.

O VERDADEIRO CULPADO

Gente… A violência atingiu níveis insuportáveis, e todos nós estamos expostos, a mercê dessa ciranda diabólica. Eu que já fui moleque de morro, nascido e criado na Rocinha, me sinto um “sobrevivente” assustado e preocupado com a minha comunidade. No caso de Ágatha, a incursão policial foi feita por delegacias especializadas, coordenadorias, homens treinados. Bem, se os homens treinados da polícia atiram em quem se mexe na janela, imaginem o cara que acabou de sair da academia? É sombrio. O tecido social está desfiando. Enquanto escrevia esta matéria, encontrei um amigo, professor da PUC, altamente politizado e sincero como eu. Quando soube do que eu escrevia, ele disse: “Respeito à polícia, mas não respeito o policial!”. Eu estava compenetrado no que escrevia, mas parei por alguns instantes pra interpretar a frase dele, é… Com respeito aos bons policiais, que são muitos, sinto dizer, mas o despreparo da maioria é flagrante. È uma cadeia de coisas que não funcionam bem, e o exemplo vêm de cima. Já não há mais controle e a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, ou seja, do nosso lado. É preciso dar um BASTA nisso! É preciso apontar o dedo na cara do poder público e gritar: “Você é culpado!”. Culpado por não saber conceder a educação a que temos direito. Culpado por deixar a saúde adoecer. Culpado por deixar matarem nossas crianças. Culpado por não nos defender. PENSE NA GENTE E NÃO APENAS EM VOCÊ. Você que se elegeu com o nosso voto de confiança, cadê você?! És o culpado pelo maldito tiro que atingiu o coração da Rocinha. O tiro que matou Ágatha e dilacerou a nossa paz. Olha governo, “pra seu governo”, a culpa é toda sua! Independente do dono do fuzil de onde a bala partiu. QUEREMOS JUSTIÇA, JÁ! UMA FRASE: “Só com inteligência e logística – Que é o que se espera – È possível atingir objetivos benéficos a população, sem que inocentes paguem por isso. Se não puderem agir com inteligência, pelo menos não dêem chance ao acaso previsível gerado pela incompetência”.

VEJA FOTOS DO CASO ÁGATHA

ASSISTA UM VIDEO CASEIRO…

Ocimar Santos EDITOR ROCINHA.ORG – “O Portal da Rocinha Real”

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Um comentário para “Caso Ágatha – UM TIRO NO CORAÇÃO DA ROCINHA”

  1. Obrigado pela crítica sensata sobre http://www.rocinha.org . Me u0026 meu vizinho estavam apenas se preparando para fazer uma pesquisa sobre isso. Temos um pegar um livro da nossa biblioteca local, mas eu acho que eu aprendi mais com este post. Eu estou muito contente de ver informações tão grande que está sendo compartilhado livremente lá fora. relação

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