CHORANDO À TOA É UM EXEMPLO PRA ROCINHA

Formado pela escola de Música da Rocinha, este é o Grupo Chorando a Toa - Foto: Leonardo Aversa

Jovens da Rocinha promovem o chorinho em meio aos populares funk e forró. Foto: Leonardo Aversa

O Globo | Publicada em 23/12/2009 às 08h56m

Leonardo Lichote

RIO – Renato Alves já foi office-boy; o primeiro contato de Diego Domingos com o trabalho foi como ajudante do pai, pintor de paredes; já Carlos Mendes acordava cedo para começar seu dia como caixa de uma padaria.- Hoje a gente não trabalha mais – dizem, rindo.

É brincadeira; afinal, eles têm trabalhado bastante – mas agora em algo que lhes dá prazer. Ao lado de Carla Mariana e Paulo Victor, eles formam o Chorando à Toa, grupo que acaba de gravar seu primeiro disco, “Descontraído” (independente), com participação de Paulo Moura e repertório praticamente todo inédito – a única exceção é “Maroto”, de Jacob do Bandolim, que havia sido gravada apenas uma vez. Formados pela Escola de Música da Rocinha, moradores da comunidade, eles vivem hoje exclusivamente de seus rendimentos com a música – com aulas e apresentações – e há três meses fizeram uma turnê por 27 cidades da Alemanha.

Ouça as músicas do Chorando à toa no MySpace

Hoje amantes incondicionais do choro, eles nada sabiam do gênero antes de entrar na escola.

- Aqui na Rocinha você ouve só funk e forró – nota Paulo Victor.

Mendes completa:

- Conhecíamos só “Brasileirinho” e “Carinhoso”. Mesmo assim, não sabia que “Carinhoso” era choro, eu chamava de seresta – conta, lembrando os encontros musicais organizados em sua casa, regados ao repertório de Nelson Gonçalves e companhia.

Alguns saíram do rock (Paulo Victor) e do pagode (Domingos) para o choro. Mas todos continuam – cada um com suas restrições e preferências – ouvindo o som que os circunda.

- Em festa, a gente ouve funk. Curte, até. Mas em casa é difícil, é mais MPB, samba e choro mesmo – conta Carla, refletindo o gosto geral de seus colegas.

- Gosto mais dos funks antigos, hoje em dia é só baixaria – reclama Domingos.

- Vivo numa ilha – diz Mendes. – Um vizinho põe forró alto, o outro quer mostrar que tem o som mais potente e mete um funk. Só me resta ficar ali em casa, ouvindo Pixinguinha baixinho.

A história da entrada do choro na vida do quinteto começou antes de eles conhecerem nomes como Joaquim Callado e Época de Ouro. O fundador da Escola de Música da Rocinha foi o alemão Hans Ulrich Koch, que, nos anos 1990, ao dar aulas em escolas particulares na Zona Sul do Rio, impressionou-se com o abismo que separava seus alunos dos jovens que via nas favelas cariocas. Decidiu ensinar também a esses, conseguiu uma sala emprestada por uma igreja da Rocinha e, há 15 anos, deu início ao trabalho. Hoje coordenada por Gilberto Figueiredo, a escola funciona no Centro de Cidadania Rinaldo De Lamare, num espaço cedido pela prefeitura. Sustentada por doações, a instituição atualmente atravessa uma crise: não conta com nenhum patrocinador.

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