CABO CHICO, UM ATIVISTA DA MAIS ALTA PATENTE

No quartel da boemia
07/10/2003 – Edu Casaes
cabo_chico_01_trat
Cabo Chico: fundador da escola

Francisco Ferreira Filho, 57, o Cabo Chico, é ferrenho admirador do samba. A ponto de tocá-lo como música de fundo da sua história de vida durante esta conversa. Por vários anos, Cabo Chico foi presidente da Velha Guarda da Acadêmicos da Rocinha. Mas está de licença: “Estou cansado”, justifica. Cabo Chico colaborou para muitas conquistas da comunidade e é profundo conhecedor da “alma rocinhence”. Hoje mora com a esposa e o filho mais novo numa casa de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, onde nos recebeu para a entrevista. Quem o visita, descobre uma bela vista da Rocinha.

“Elite se achava melhor”

“O apelido ‘Cabo Chico’ nasceu de uma brincadeira de adolescentes. Éramos um grupo de rapazes vizinhos. Apenas um morava sozinho e nós fizemos do barraco dele um quartel. Nos encontrávamos lá e levávamos as namoradas. Já que era um ‘quartel’ começaram a colocar as patentes, de ‘conscrito’ a primeiro-tenente. Nenhum deles vingou, só o cabo mesmo.

Era a época da ‘Jovem Guarda’, uma época romântica. A maioria da rapaziada fazia festa no final de semana, você nunca ficava sem ir a uma festa. Havia dois clubes na Rocinha – a Soreg, que a gente chamava de clube da ‘elite’, e o ‘Rala Bucho’, que ficava em frente, bem onde hoje é a casa de shows Varandão². As duas tocavam o mesmo estilo, o público é que era diferente.

A ‘elite’ era aquele pessoal que se achava melhor que os outros. Tinha mais grana, se vestia melhor. A Soreg trazia os grupos de mais renome. Os Pholhas, Os Fevers. No Rala Bucho só tocava disco, LP. Minha música preferida é Gosto tanto de você, de Roberto Carlos.

Já existia o antigo bloco Império da Gávea, fundado por dona Sebastiana, da Rua 2³. Nos meados de 1966 veio o bloco Sangue Jovem, que era da Rua 1¹¹. Eu participava do Império, desfilando em alas. Também tinha um bloco de embalo: o Bafo da Cana. Este não era filiado à federação de blocos, como os outros.”

Vida social intensa

cabo_chico_06_trat
Cabo Chico ao lado da família

“A gente também se encontrava na praia. Não existia o Hotel Nacional nem o Intercontinental, em seu lugar tinha um restaurante pequeno. Era o Drive-in, mas só abria à noite. O que predominava na praia era o futebol, o vôlei era pouco praticado. A Estrada da Gávea também servia de ponto de encontro. Só passava carro de hora em hora, quer dizer, a rua ficava cheia de gente. Além disso, tinha a matinê do cinema da Fundação²² nos finais de semana.

Passava a metade de um seriado numa semana e, no melhor, acabava. Tinha que esperar a outra semana para ver o final. Era Jim das Selvas, Zorro, Gerônimo, o herói do sertão. O preço era baixo, mixaria, hoje seria R$ 1. Não querendo ser saudosista, mas essa geração de hoje deixou influenciar-se muito pelo funk. Quando se ouve: ‘vou ao baile’, você lembra daquela época em que realmente existiam os grandes bailes. O baile era para namorar, dançava-se coladinho. Mesmo sem namorado você desfrutava daquele momento. O baile hoje tem briga, uma gangue contra a outra, rivalidade. Para mim mudou para pior.

Tenho muitos amigos e não gostaria de citar nenhum para não me comprometer esquecendo de alguém. Antes a gente se encontrava mais, era mais humano. Hoje tá todo mundo muito atarefado, quase não se vê, a não ser no final de semana.”

Tirou para dançar e casou

“Namorei muito, mas casamento só um, graças a Deus, com a senhora Helenice de Mello Ferreira. Conheci minha esposa numa festa de quinze anos que teve na Rua 3. Festa de um amigo nosso. Como era a época da Jovem Guarda imperavam as músicas românticas. Chamei ela para dançar e estamos juntos até hoje. Nessa época eu tinha 17 anos e ela 16. Namoramos por muito tempo, tivemos dois filhos, o mais velho Robson de Mello Ferreira, 32, e o mais novo Milton de Mello Ferreira, 28. Casamos em 1984. O caçula ainda mora com a gente, o outro já constituiu família e mora na Paula Brito²²²²². Quando meus filhos eram pequenos, eu e minha esposa trabalhávamos, deixávamos eles aos cuidados de minha sogra.”

cabo_chico_10_trat
Chico e Helenice: namoro começou em festa

Depois do gurufim, o ‘rabecão’

“A população era bem menor. Quando morria alguém, a gente comunicava no DPO e chegava o ‘rabecão’ e levava. Bem antes, lembro do ‘gurufim’. O defunto era velado em casa, o pessoal passava a noite contando anedota, dançando. Tinha um cafezinho ‘básico’ e cachaça. E, quando era casa que tinha muita macumba, como o terreiro de dona Damiana, mãe de santo de um centro na Rua 3, eles faziam uma festa mesmo. No outro dia, saía o cortejo levando o morto.”

O homem forte do jogo do bicho

“Fui criado pela minha mãe, que era doméstica. Além dela somente meu tio ajudou. Na adolescência, eu e minhas irmãs, Antonieta e Lindalva, começamos a trabalhar e, graças a Deus, estamos aí até hoje. Sou o caçula.

Ninguém foi criado dentro de casa. Antigamente a liberdade era maior e os vizinhos entravam e saíam de casa o tempo todo. Praticamente era criado todo mundo junto, os vizinhos eram muito importantes, sempre amigos.

Na minha época, a Rocinha tinha vários espaços para a gente brincar. Chegávamos do colégio, guardávamos os livros e íamos brincar de pique-esconde, de mocinho e bandido, corríamos a favela toda. Hoje não existe mais isto, não há mais espaço. O futebol sempre existiu, o menino sempre vai gostar da bola. Mas antes predominavam as pipas. Hoje não. É mais video-game e computador.”

As pessoas eram mais solidárias umas com as outras. Hoje as coisas evoluíram, mas em outros pontos se atrasaram. Hoje tá todo mundo individual. É muito difícil você contar com alguém. Quando o pessoal não queria pedir muito aos vizinhos, eles procuravam o ‘homem forte’ do jogo-de-bicho, que na época era o ‘Sansão’. Mais ou menos de 1966 a 1968. Naquele tempo também tinha muitos padrinhos escolhidos pela consideração.”

Sobre o jogo do bicho hoje, na Rocinha, Cabo Chico diz: “Continua a mesma coisa, só que o pessoal antes participava mais. Havia uma integração maior, até porque o bicheiro da época, o Sansão, era da comunidade e ajudava muito as pessoas carentes. Antigamente existiam aquelas senhoras que não passavam um dia sem fazer uma ‘fezinha’. Hoje se tornou uma coisa menos tradicional. O fim da década de 1960 foi o auge do jogo até porque a comunidade era menor, era mais fácil. O jogo não se expandiu na proporção do crescimento da população local”.

Alegria de Cosme e Damião

cabo_chico_03_trat
Unidos da Rocinha, em 1982

“Meu primeiro emprego foi de contínuo na extinta loja de eletrodomésticos Rei da Voz. Também trabalhei de estoquista em casa de iluminação e, nos últimos vinte anos, no ramo de hotelaria. Considero esta a minha principal ocupação durante a vida. Trabalhei dez anos no Hotel Sheraton, oito anos no Copacabana Palace, e dois anos no Windsor Palace.

Sempre no setor de lavanderia. Minha mãe era católica e eu também sou. Deus é um só, está em todo lugar. Não acredito que a pessoa mude de religião esperando mudar seu temperamento e seu modo de vida. Se você quer o bem-estar do próximo e o seu, tudo vai correr bem. Hoje, de cinqüenta em cinqüenta metros encontra-se uma igreja (evangélica).

Antigamente só existia uma igreja católica aqui, a Nossa Senhora da Boa Viagem, na Fundação. Depois fundaram a Nossa Senhora da Aparecida no Boiadeiro²²². Evangélica era só a Batista, também na Fundação. Centro de Macumba tinha uns dez. Da Rua 3, do Seu Mangueira; na Rua 1; no final do Valão³³³; tinha na Raiz; na Estrada da Gávea e tinha o do Seu Raimundo, perto da Cachopa. Esses são os que me lembro. As únicas festas de santo que lembro são as de São Jorge e Cosme e Damião, esta última era o dia da alegria da molecada.

Os ‘centros’ faziam uma festa muito grande. Eram muitos doces, muita brincadeira e brinquedos. Na igreja católica lembro de festa na Semana Santa. Fazia-se comida em casa, os familiares todos juntos. Realmente era muito respeitado. Às vezes os vizinhos se reuniam, era muito gostoso.”

Festas raras

A respeito do número maior de igrejas evangélicas na Rocinha e da diminuição dos centros de macumba, Cabo Chico não sabe bem o que provocou a mudança.

Em suas palavras: “(o número de centros) Diminuiu muito. Talvez porque algumas pessoas responsáveis pelos centros mudaram da Rocinha. A maioria foi para Niterói ou Jacarepaguá. Hoje, na minha opinião, os centros estão muito reduzidos. Acredito que o aparecimento dos evangélicos também prejudicou. As festas acontecem pouquíssimo agora. Por exemplo, a sensação da criançada no dia de São Cosme e Damião era ir para o centro. Hoje não existe mais. Acho que o crescimento das igrejas evangélicas é mais um refúgio das pessoas.

Elas estão muito desacreditadas de tudo: falta emprego, dificuldades, enfim, o social em geral. Com isso as pessoas se iludem muito. A promessa de que as coisas vão melhorar e que os problemas serão resolvidos atrai. Na minha concepção é tudo ilusão”.

Amizades perdidas

“A casa onde fui criado, a da minha mãe, era de quarto, sala, cozinha e banheiro. Morávamos eu, minha mãe, minhas duas irmãs e uma tia. Era no alto do morro e perto da pedra. Elas dormiam no quarto e eu na sala. Nunca moramos de aluguel. Meus primeiros amigos foram o Ailton Rosa, que “já partiu’ e, que foi o primeiro presidente da Acadêmicos da Rocinha, e o falecido ‘Zoinho’.

cabo_chico_05_trat
Samba sempre foi motivo de orgulho

Antigamente tinha muito carregador de feira e o Ailton carregava compras na feira. Certo dia ele me chamou para carregar compras em uma feira lá da Lagoa. Jogávamos bola de gude, futebol e, no final de semana, íamos para um parque na Praça Antero de Quental, no Leblon.

O verdadeiro amigo para mim é sincero, é aquele que você pode contar em todas as horas. Senti muito quando o Ailton morreu. Não tive irmão e, como nos conhecíamos desde crianças, ele era como se fosse um para mim. Ele transmitia muita alegria para as pessoas. Outro amigo que perdi e que me marcou muito foi o ‘Buti’. Ele se enforcou lá na quadra¹, que na época abrigava o bloco Império da Gávea. Na noite anterior da morte dele teve um baile na quadra e ele estava com uma corda na mão brincando, dizendo que ia se enforcar. Na manhã seguinte ele realmente apareceu enforcado na quadra. Foi triste e estranho. Mudei para a Rua 3 na adolescência e aqui estou até hoje.”

Ameaça de remoção

“Antigamente era tudo barraco de madeira com telhado de zinco, depois surgiram as telhas de barro. A maior parte da população é nordestina. Eles vinham para cá e começavam a trabalhar em obras. Quando terminavam as obras o mestre-de-obras cedia as madeiras usadas. Os vizinhos faziam um mutirão e iam construindo as casas. Com o tempo os barracos foram melhorando. No final dos anos 1960 o pessoal começou a fazer de alvenaria.

O Sinval foi um dos primeiros a ter uma loja de material de construção na comunidade e facilitou o processo. Não era interesse dos governantes a melhoria das casas. A gente vivia sob ameaças de remoção. A favela nunca foi bem vista pelos governantes. Eles falavam que iam tirar o pessoal da comunidade para levar para Santa Cruz da Serra. Tanto é que colocaram fogo lá na Praia do Pinto¹¹¹¹. Alguns dos moradores de lá estão na Cidade de Deus (Zona Oeste) e outros foram para a Cidade Alta (Cordovil, na Leopoldina) e moram lá até hoje.

Todo mundo ficava com medo de fazer uma melhoria no barraco e depois perder tudo. Quando começaram a construir o túnel Dois Irmãos²²²² , havia uma favela ali em cima, o ‘Pombal’, todo mundo teve de sair. Uns foram para Santa Cruz, outros para Paciência e Cidade Alta. Muitos não resistiram e voltaram, formando hoje o que se conhece como Morro da Roupa Suja³³³³ e Campo do Esperança¹¹¹¹¹. Quando todos este fatos ocorreram já existia a associação de moradores.”

Paquera na bica d’água

cabo_chico_04_trat
Fundadores da escola de samba da Rocinha no carnaval de 1992

“A iluminação era péssima. Uma pessoa só explorava a luz aqui. Era o ‘Batista’. Ele tinha um escritório central aonde hoje é uma padaria no valão. Se quisesse ter luz era obrigado a passar por ele. Ele conseguiu uma concessão da Companhia de Luz. O pessoal pagava e recebia um recibo. A gente que morava lá em cima sofria. Não tinha um relógio para cada casa como é hoje. Os medidores eram colocados na Estrada da Gávea e ficavam um em cima do outro, tipo ‘casa de pombo’.

De lá se gastava cinco ou seis rolos de fio para puxar para perto da pedra. Às 8 h da noite, era o melhor da festa, não tinha luz. Participei da reivindicação de luz na comunidade. Foram feitas passeatas e abaixo-assinado para ter luz direto da companhia. Nesta época quem mais se destacou foi o Martins, que já foi administrador Regional. No meu tempo, água só nos poços. Tinha a bica do Santeiro, na Rua 3, que existe até hoje. Essa abastecia os moradores da Rua 2, Rua 3 e Rua 4. Era uma nascente lá mesmo na Rua 3.

Existia também o pocinho do Bananeiro. O Bananeiro era muito severo. As crianças iam pegar água lá e ele cobrava. Se não pagasse ele amassava as latas e não deixava pegar. O interessante da bica do Santeiro era a minha sogra que também já partiu. Naquela época, era o seguinte: você chegava e colocava sua lata na fila e enchia cinco, no máximo seis latas, e trazia para casa e abastecia. Mas a mãe da Helenice colocava a dela e enchia quarenta ou cinqüenta latas e não deixava ninguém encher.

Geralmente quem pegava a água eram os meninos, na balança. Dava umas seis viagens cada um, para depois ir brincar. Enquanto não botava água em casa a mãe não deixava sair. E as meninas lavavam a roupa. Cansei de paquerar a Helenice lavando roupa na bica, mas na época ela não me dava ‘bola’. Antes havia muito mais respeito com os idosos, hoje nem tanto. Tem de conscientizar mais esta rapaziada. Eles vão ser os idosos de amanhã. Os idosos de hoje já fizeram muito pela comunidade.”

Ação comunitária

“A conscientização aumentou com a força das igrejas, na época, do Frei José, e da própria associação. Começaram a fazer reivindicações aos políticos, fazer passeata: ‘Queremos água, queremos água’. Com isso a água foi chegando e hoje está bem melhor. O Armando da Fonseca inaugurou a caixa d’água da Rua 1 e colocou uns tanques perto da Verlene, no Caminho do Boiadeiro. Mas essa água ele inaugurava na véspera da eleição e depois a água não chegava mais, a caixa ficava sempre vazia.

O lixo era bem pior. O pessoal jogava na vala mesmo. Era difícil alguém da Comlurb (Companhia de Limpeza Urbana) passar por aqui. Hoje mudou porque as pessoas estão mais conscientes, mas ainda existem algumas que jogam o lixo na vala. Mas agora já existe local para jogar o lixo. A Comlurb está diariamente aqui. Mas para dar vazão é complicado, a população aumentou muito. Tem como melhorar mais, basta maior interesse deles.

O esgoto também era diretamente ligado na vala. Era manilha de barro. Para mim continua precário. O lixo e o esgoto quase não mudaram, mas a luz e a água melhoraram bastante. Na época da minha mãe não tinha posto de saúde na comunidade. Quem atendia era o doutor Mário. Tirando o Hospital Miguel Couto, quando alguém ficava doente pensava no doutor Mário. Era uma clínica geral e paga. Quando cheguei aqui, em 1958, já existia. Ele montou tipo um plano de saúde, aí o pessoal procurava muito. Hoje a principal referência é o Miguel Couto.”

As corridas de “baratinha”

cabo_chico_07_trat
Chico: “As pessoas estão mais conscientes”

“Conversando com outras pessoas fiquei sabendo que aqui era uma grande chácara. Tinha uma família que cultivava hortifruti e pessoas de outros locais vinham comprar legumes e verduras. E falavam: ‘É de uma rocinha que tem ali na Gávea’. E ficou.

O Boiadeiro tem esse nome devido a um senhor que criava bois no local. O nome dele era ‘Zé Boiadeiro’. Virou Largo do Boiadeiro. Acho que para morar melhor depende do esforço de cada um. O cara pode morar lá no pico do morro e ter de tudo dentro de casa. A região mais pobre da Rocinha para mim é a ‘Macega’³³³³³. Lá merecia maior atenção de todos.

Não alcancei, mas um marco daqui foi a corrida de ‘baratinha’, a Formula 1 de hoje. Também lembro da corrida de carrinho de rolimã que foi realizada na Estrada da Gávea, nos anos de 1968 e 1969. A gente descia da Rua 1 até a Fundação. Tinha troféu e tudo, era um barato. Foi o próprio Ailton Rosa que realizou estes eventos. Foram dois anos. No terceiro ano aconteceu um acidente, um dos amigos, o Vigilato, perdeu a direção do carrinho, bateu contra a mureta e quebrou a perna. Aí parou.”

Lampião na Rocinha

“Não dá para falar da Rocinha sem falar no falecido Seu Manjar, do samba, no Seu Ismael, que foi presidente da associação de moradores, e no Seu Nestor, que atuava nos mutirões. Foram pessoas que deram muito pela comunidade.

Mas a pessoa que não podia ficar de fora, mesmo com todo o folclore dele, foi o Zé do Queijo. Ele viveu os dois lados, rude, não tinha quase instrução. Foi influenciado por outras pessoas que tinham interesses dentro da Rocinha. Elegeram ele como presidente da associação de moradores e depois deram poderes a ele que só vieram a prejudicar. Ele era um birosqueiro.

Na época aconteceu um acidente com o filho dele. Numa troca de tiros entre bandidos e policiais seu filho foi atingido. Ele o socorreu e, na volta, pegou uma arma e foi atrás dos bandidos. O secretário de segurança da época era o Vivaldo Barbosa. Zé do Queijo fez coisas horríveis dentro da comunidade. Matou muita gente. Loteou a Cachopa, que teve início por causa dele. Foi tipo um Lampião. Teve muitos erros e acertos. Certo dia ele estava abrindo o estabelecimento dele, no pé da Cachopa, e foi assassinado.”

A grande enchente

“O fato que mais me marcou foi ruim. Em 1964, houve uma enchente no Rio e a Rocinha foi muito atingida. Muitas pedras das encostas rolaram, morreu muito irmão mesmo. Para se ter uma idéia, na Soreg tinha uma faixa de trinta a quarenta corpos. Isso marcou muito.

A Fundação Leão XIII ajudava muito, a associação de moradores na época não tinha muita força. Lembro-me também do Antônio Oliveira que tentou ajudar, mas não conseguiu. Não deixaram. Existiam vários grupos políticos e uma grande rivalidade política aqui dentro. Ele procurou fazer tudo com honestidade, tudo para o bem-estar.

Depois dele veio o Osni, assim como o Oliveira, não mora mais aqui, Maria Helena, Jorge Mamão, Lucreide e hoje a Luiza. Maria Helena era uma pessoa muito boa. Conheci ela jovem. Muito amiga, ela foi sempre de participar das ‘lutas’.”

Orgulho de morador

cabo_chico_02_trat
Cabo Chico, no Carnaval de 1996

“A Rocinha foi sempre criticada. Em todos os sentidos. Nunca acreditaram que aqui existiam trabalhadores honestos. Tanto é que o morador daquela época tinha vergonha de dizer que morava na Rocinha. Se ele ia procurar um emprego e preencher uma ficha, nunca dizia que morava na Rocinha. Falava que morava na Estrada da Gávea, em São Conrado. Porque existia uma discriminação, se morasse na Rocinha perdia a vaga. Hoje é mais respeitada e o pessoal tem até orgulho: ‘Sou da Rocinha’. Isso porque a Rocinha cresceu e mostrou que tem pessoas capacitadas que merecem respeito.

Felizmente moramos na maior favela da América Latina, então tem de tudo aqui. Não conheço muito as comunidades vizinhas, a não ser o Vidigal. Temos banco, se precisa ser atendido rapidamente, já tem clínica particular. Muitas comunidades ainda não têm o privilégio que nós temos. Entre as coisas que mais gosto daqui, estão a escola de samba Acadêmicos da Rocinha e o convívio da rapaziada, tanto jovem, quanto antiga. O que menos gosto é deste trânsito aí fora. Se eu pudesse mudava isto tudo.

Até certo ponto é bom, mas em outros atrapalha, tumultua. A população aumentou desordenadamente. Isso afetou as áreas verdes que a gente tinha naquela época. A Cachopa é praticamente um bairro e a Vila Verde tinha uma cachoeira que a gente tomava banho direto. Hoje não existe mais.”

1 – Quadra da escola de samba Acadêmicos da Rocinha – Rua Bertha Lutz, 80
2 – Casa de show na Fundação.
3 – Parte alta. Próximo ao nº 369 da Estrada da Gávea.
11 – Parte alta. Estrada da Gávea nº 259
22 – Parte média. Estrada da Gávea nº 500
33 – Próximo á Fundação.
111 – Aproximadamente na metade da Rua 3.
222 – Largo Próximo ao túnel Zuzu Angel. 333 – Próximo ao Valão.
1111 – Favela que pegou fogo que ficava na bairro da Gávea.
2222 – Atualmente túnel Zuzu Angel.
3333 – Comunidade em cima do túnel Zuzu Angel.
11111 – Parte baixa. Comunidade que fica depois do Valão.
22222 – Escola Estadual Paula Brito, parte média, próxima a Rua 3.
33333 – Parte alta. Comunidade localizada junto ao morro Dois Irmãos.

FONTE: Favela Tem Memória. Por: Edu Casaes

Tags: , , , , , , ,

Deixe um comentário