A DISPUTA DE ZÉ DO QUEIJO E MARIA HELENA

DNA das urnas
30/07/2004 – Marcelo Monteiro
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Rocinha: disputas políticas nos anos 80

Dois presidentes, duas sedes e duas instituições com o mesmo nome. De um lado, a professora Maria Helena Pereira, apoiada por moradores do Bairro Barcelos e Labouriaux. Do outro, o birosqueiro Zé do Queijo, adorado na Cachopa. No meio, a União Pró-Melhoramentos da Rocinha, principal associação de moradores da comunidade na Zona Sul do Rio que voltava a funcionar após 10 anos, pois tinha sido desativada durante o regime militar. Ambos os líderes se diziam representantes legítimos da favela. E não admitiam de maneira nenhuma abandonar o poder. Nem mudar o registro da entidade. A confusão estava armada.

“Os dois grupos falavam que eram os verdadeiros representantes políticos da favela. Como não houve consenso o poder público teve que interceder”, lembra a agente comunitária Tânia Regina da Silva, de 44 anos, 1ª secretária na chapa da professora Maria Helena.

Segundo ela, durante esse período o poder público se aproveitou da polêmica e não fez nada na Rocinha. “Diziam que não podiam tratar com uma associação que eles não tinham certeza que era a verdadeira. Apesar de toda a confusão, foi o momento mais bonito da nossa história política”, afirma Tânia, envolvida com trabalhos comunitários na favela desde os 18 anos.

As duas associações homônimas chegaram a brigar na Justiça pela sigla em 1983 – mas não houve solução para o impasse. Por ordem do então governador Leonel Brizola, eleito um ano antes pelo recém-criado Partido Democrático Trabalhista (PDT), foi marcada uma nova eleição para decidir qual grupo teria direito à presidência. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Secretaria de Justiça acompanharam de perto a disputa.

(Coincidentemente, em 1980, o próprio Brizola se envolveu num caso parecido ao disputar com a deputada Ivete Vargas o direito de usar a sigla PTB – Partido Trabalhista Brasileiro. Com a colaboração do então Chefe da Casa Civil do Presidente Figueiredo, Golbery do Couto e Silva, a filha de Getúlio Vargas ganhou a causa na Justiça. No dia 6 de junho do mesmo ano, Brizola e outras lideranças trabalhistas fundaram o PDT.)

Liderança que veio para dividir

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Prédio da antiga UPMMR

Criada em 1961, a União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha (UPMMR) foi desativada no final dos anos 60 pelo regime militar. Durante uma década, o movimento político na favela praticamente parou. Até que um grupo de mulheres, a maioria com menos de 30 anos, entre elas Tânia Regina e a própria Maria Helena, criou o Movimento de Organização e Renovação da Associação (Mora).

“A gente queria trazer novos ares para a política da Rocinha. Foi uma época muito importante na história da comunidade porque todos os moradores estavam engajados na luta para melhorar as condições de infra-estrutura no morro. Só que para nossa surpresa, quando fomos reativar a União um outro grupo já tinha se apropriado da sigla e montado uma associação paralela com o mesmo nome”, lembra Tânia. “A pessoa que fazia essa mobilização era a Eleonora (Castaño, socióloga da Pontifícia Universidade Católica) que colocou o Zé do Queijo como presidente por causa da influência que ele tinha entre os moradores, principalmente os nordestinos. Ela era o tipo de liderança que veio para dividir e ele um cara que andava armado, que tinha bastante influência e poder numa determinada área da comunidade”, explica.

A socióloga Eleonora Castaño chegou na Rocinha por volta de 1973 para fazer política. Estudante da PUC-Rio, não era filiada a nenhum partido, embora muitos na favela acreditassem que ela tinha ligações com Chagas Freitas (governador do Rio entre 1978 e 1982) e até com o regime militar. No início, Eleonora conseguiu apoio exatamente nos grupos de mulheres que desejavam reativar a associação de moradores – entre eles o Mora.

No final dos anos 70, quando surgiu a possibilidade de reativar a União Pró-Melhoramentos, Eleonora se envolveu numa briga interna e foi expulsa do Mora. Antes de abandonar o grupo, no entanto, tomou posse de toda a documentação da associação de moradores. Resultado: semanas depois, ela fundou uma entidade homônima com o mesmo CGC. E convidou Zé do Queijo para a presidência.

Lampião da Rocinha

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Zé do Queijo em reunião na Rocinha


“O Zé do Queijo andava armado e se dizia justiceiro. Ele foi usado como uma espécie de testa-de-ferro da Eleonora por causa da influência que tinha entre os moradores da Cachopa”, acredita José Martins de Oliveira, de 58 anos, um dos fundadores da Associação de Moradores do Bairro Barcelos no começo dos anos 80.

“A ocupação da Cachopa começou com os loteamentos que o Zé do Queijo fez nos anos 70. Ele foi uma figura folclórica na Rocinha. Não tinha quase instrução, matou muita gente. Foi tipo um Lampião. Teve muitos erros e acertos. Mas nessa época foi influenciado por pessoas de fora da comunidade que tinham interesses aqui dentro”, completa Francisco Ferreira Filho, de 57 anos, o Cabo Chico, que durante muitos anos presidiu a Velha Guarda da Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha.

“Meu pai ajudou muita gente da Rocinha, principalmente quem chegava do Nordeste. Ele dava comida, arrumava lugar para o pessoal ficar. Virou presidente porque diziam que ele fazia mais pelo povo que o próprio presidente da associação na época. Mas ele nunca teve nada contra a Maria Helena, só eram inimigos na política”, esclarece Joel José da Silva, de 37 anos, filho de Zé do Queijo que ficou paralítico aos 9 anos após ser atingido por uma bala perdida. Joel mora até hoje na mesma casa que o pai construiu nos anos 70. Seu irmão mais velho tem o mesmo nome do pai: José Inácio de Assis.

Novas associações e luta por água e luz

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Martins apoiou Maria Helena

Enquanto a polêmica entre Maria Helena e Zé do Queijo esquentava a disputa política na UPMMR, moradores de localidades específicas da Rocinha criavam associações independentes para cuidar dos seus próprios interesses. As mais importantes no Labouriaux e no Bairro Barcellos. O reaquecimento do movimento comunitário na favela coincidia com a reabertura política no país e a insatisfação cada vez maior dos moradores com as condições de infra-estrutura nos morros cariocas.

“A mobilização comunitária na Rocinha recomeçou a partir da luta pela água no final dos anos 70. A Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos) entrou com a mão-de-obra e os moradores compraram o material”, lembra José Martins, que logo depois teria papel fundamental na instalação de uma rede elétrica oficial na comunidade.

Apesar do surgimento de outras associações de moradores locais, a UPMMR permanecia como entidade mais representativa da Rocinha frente ao poder público. Por isso, tornava-se cada vez mais necessária uma solução imediata para a polêmica. A proposta do governo estadual para a realização de uma eleição “tira-teima” entre os dois presidentes foi prontamente aceita pelos moradores e pelas principais lideranças políticas do morro.

“O processo eleitoral foi muito bonito porque os dois grupos fizeram um cadastramento inédito em toda a favela. Criamos um documento que servia como uma espécie de título eleitoral. E a campanha também foi muito bem feita”, lembra Tânia Regina, que participou de diversas carreatas pela favela puxando gritos de guerra em favor de Maria Helena.

“Mas o clima estava tenso também. Havia uma rivalidade enorme entre o Zé do Queijo e o Antônio Trajano, padrinho da Maria Helena. Teve até ameaça de morte. Por causa disso a gente passou a dormir todo dia na casa de uma pessoa diferente para não dar pista”, conta.

“O Zé do Queijo tinha mesmo muito problema com o Trajano. Havia uma história de ameaça de morte conhecida entre os dois”, confirma o policial comunitário aposentado Jorge Luís Nascimento da Silva, de 61 anos, o Jorge Mamão, presidente da UPMMR entre 1991 e 1993.

Diferença mínima

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Tânia comandava carreatas de M. Helena


No dia da eleição, pelo menos cinco mil pessoas compareceram às urnas espalhadas pela comunidade. A apuração foi feita pela Secretaria de Justiça. E Maria Helena acabou vencedora. Mas por muito pouco.

“Eu achava que ela ia vencer fácil, mas a diferença de votos foi mínima, menos de 10%. A vitória unificou a associação e a Maria Helena ficou sozinha no poder. Era o combinado”, lembra José Martins.

Zé do Queijo perdeu a eleição mas continuou poderoso na Cachopa. Já Eleonora nunca mais voltou à Rocinha. Foi morar nos Estados Unidos, onde morreu em 1996 aos 55 anos.

Com a eleição de Maria Helena, a Rocinha ganhou destaque nos jornais em páginas que não as policiais. A professora de 25 anos virou mito dentro e fora da comunidade. No auge do sucesso, encarou o desafio do jogo do bicho e do tráfico de drogas.

Final trágico

Em setembro de 1987, Maria Helena foi assassinada dentro de casa. O caso nunca foi esclarecido. Segundo amigos, ela sabia dos riscos que corria - por isso tinha criado uma senha que perguntava antes de abrir a porta de casa. Portanto, o assassino pode ter sido uma pessoa conhecida ou até próxima. O certo é que os tiros na líder comunitária abalaram todo o movimento social na favela. Durante os anos seguintes, a vida política na comunidade novamente esfriou. Nos anos 90, voltou lentamente, dessa vez sob o comando dos homens.

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Joel, filho de Zé do Queijo


“A morte da Maria Helena me apavorou”, admite Tânia, que logo após o assassinato assumiu a presidência da União. “Mas continuei firme e hoje estou aqui para contar a história. Logo depois foi a vez do Zé do Queijo que também morreu numa circunstância estranha. A bruxa estava solta e voou baixo na Rocinha.”

Joel lembra: “Meu pai foi morto na porta de casa. Ele sempre acordava cedo e foi na hora que estava abrindo a birosca. Mas não foi bala perdida não, as pessoas vieram aqui só para fazer isso”.

Assim, os dois principais personagens políticos da comunidade nos anos 80 saíram de cena. Apesar do fim trágico, a lição de democracia já estava dada pela Rocinha no que ficaria marcado como uma das maiores disputas pelo poder administrativo numa favela do Rio.

Trecho de matéria publicada no Jornal do Brasil em 23/05/1983:

A favela da Rocinha viveu ontem uma tarde de intensa programação política e confusão. O atual presidente da União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha, Zé do Queijo (José Inácio de Assis), organizou um plebiscito para que haja apenas uma associação, sem a concorrência de outras que também se dizem legítimas. Mas os outros três candidatos não reconhecem o plebiscito e reuniram-se em assembléia com a comunidade.

O plebiscito começou ao meio-dia e terminou às 18h, enquanto a assembléia estava marcada para as 16h. Os moradores iam de um lado para o outro sem saber se preenchiam a cédula ou se subiam até a Escola Comunitária Maria de Elisa para participar da assembléia. O presidente da Faferj (Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro), Irineu Guimarães, presente nas duas manifestações, não apoiou nenhum dos candidatos, apenas pediu para que seja resolvido o intrincado problema da presidência da Associação de Moradores da Rocinha. (…)

(…) Na assembléia, que contou com a participação de mais de 200 moradores, estiveram presentes o presidente da Faferj, Irineu Guimarães, o deputado Flores da Cunha (PDT), representante da Fundação Leão XIII, e Ana Batista, da Federação das Mulheres. Irineu Guimarães fez uma proposta: “Fazer uma assembléia gigantesca com todos os moradores, marcar eleições fazendo nova mesa de negociações com todos os candidatos. Assim chegaremos finalmente a uma só associação, que será reconhecida pelas secretarias de Desenvolvimento Social, Promoção Social, Faferj e Fundação Leão XIII”.

Para o deputado Flores da Cunha é importante “que se acabe com essa situação mal resolvida aqui na Rocinha. Todo mundo se acha presidente da Associação verdadeira”.

Do Portal Viva Favela – ‘Favela Tem Memória’

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2 comentários para “A DISPUTA DE ZÉ DO QUEIJO E MARIA HELENA”

  1. lenio montanha disse:

    Eu era criança quando tudo isso aconteceu , fiquei sabendo pelo meu pai das historias politicas na rocinha.Eu me recordo vagamente da morte da então lider comunitaria Maria Helena que criou bastante comossão dentro da comunidade, conversando com os mais velhos que acompanharam a tragetoria da lider comunitaria disseram que ela teria um brilhante futuro na politica senão tivesse sido assassinada tão covardimente.Lendo esse texto da pra perceber que toda ação tem uma reação, quem quiser fazer uma politica seria idelolgica com uma visão social definida visando ajudar quem realmente precisa, pode pagar esse preço.

  2. Cezar Farias disse:

    Lembro bem da dessa época no início das discussões não entendia nada ia com minha mãe para as reuniões acho que minha mãe votava no Zé do Queijo lembro que quando voltamos do Ceará em 1977ele nos ajudou eu era criança, lembro também da Maria Helena acho que um irmão dela estudou comigo se não me falho a memória. Eu participava de um grupo de filmagem e fomos filmar umas dessas reuniões, como aluno. Acho que esses movimentos teve influência na minha vida pois sempre gostei de política, reuniões, luta social, hoje sou Fotografo Profissional e presto assessoria a um vereador no interior do Ceará, mais nunca me esqueço da Rocinha. Sempre conto as aventuras e as experiências vivida. Morei num barraquinho de tabua feito com resto das construções do Vilage, eu e meus irmãos (ANA e SERGIO), sofremos muito mais não perdemos a dignidade joguei no time do Almir da Cachôpa, e estudava na Paula Brito, andava na rocinha toda, recordar é muito bom guando passava na rua 3 via o filho do Zé do Queijo já tinha sofrido o tiro mais não sabia seu nome (Joel). Valeu Joel um abraço.

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